A Casa Triângulo inaugura, em 28 de março, Dois Infinitos, a 11ª individual de Sandra Cinto na galeria, reunindo um conjunto inédito de trabalhos que aprofundam questões centrais em sua trajetória: deslocamento, horizonte, travessia e a construção poética do espaço. A exposição será acompanhada por textos críticos de Josué Mattos e Priscyla Gomes.
O eixo central da mostra será um grande biombo circular, concebido especialmente para a exposição. A escolha do biombo — elemento historicamente associado à ideia de passagem, proteção e delimitação — dialoga diretamente com a pesquisa da artista sobre fronteiras instáveis e territórios imaginários. Em sua produção, o mar, o céu e a linha do horizonte aparecem como metáforas recorrentes de transição e incerteza; aqui, a estrutura circular potencializa essa noção de continuidade e ciclo, dissolvendo começo e fim.
Com superfície dourada, o trabalho aproxima-se das investigações recentes da artista sobre luz, reflexão e transcendência. O dourado, presente em diferentes momentos de sua obra, não opera como ornamento, mas como campo simbólico: remete ao sagrado, ao infinito e à ideia de permanência frente à fragilidade das paisagens que ela constrói. Ao envolver o espectador em uma forma curva e contínua, o biombo transforma o espaço expositivo em uma experiência imersiva, instaurando um ambiente contínuo e envolvente.
Em seu texto crítico, Josué Mattos destaca que “ao longo de mais de 30 anos, trinta anos, Sandra Cinto elege o espaço interior de cada ser vivo como residência do que define como Grande Sol e Noites de Esperança, duas forças que atravessam sua construção poética”.
No contexto da exposição Dois Infinitos, a artista lida com esses paradoxos da experiência sensível na passagem da obscuridade para o calor dourado que acolhe suas constelações, formações rochosas e paisagens oceânicas. Afluentes e correntes se encontram nesse território de transição, como se cada imagem habitasse o limiar entre um campo e outro. A paisagem interna e sagrada, organizada em oito atos contínuos, transporta o público para um território sensível no qual a luz permite a diversidade cromática, a profundidade e a sobreposição de montanhas e quedas d’água.
Mattos também pontua que “é nesse campo que a linha surge como gesto emancipador: o mesmo traço que atravessa superfícies e horizontes instaura espaços de passagem entre o visível e o imaginado. A exposição acolhe cada sujeito em um espaço íntimo, fazendo de sua longa trajetória na Casa Triângulo um momento singular, quando o infinitesimal encontra o infinito que assombra por sua força incomensurável e encanta por sua beleza que chama à devoção.”
Ao longo de sua trajetória, Sandra Cinto realizou extensas intervenções murais em que mares, céus e horizontes ocupam a arquitetura e expandem o gesto do desenho para além do suporte tradicional. Nesta exposição, o biombo atua como síntese dessa prática: é ao mesmo tempo desenho expandido, pintura e arquitetura. Instalações permanentes da artista podem ser vistas no Teatro Cultura Artística, em São Paulo, no edifício da Itaúsa, na avenida Paulista, e na área da piscina do Hotel Rosewood São Paulo, além de instalações permanentes realizadas nos Estados Unidos, Espanha, Tailândia e Japão.
A mostra contará ainda com outras obras em diferentes formatos, que dialogam com o elemento central e ampliam a atmosfera construída no espaço, reforçando a relação entre gesto repetitivo, paisagem imaginária e experiência espacial.