A Galeria Estação apresenta, a partir de 28 de abril, a exposição “Memórias da terra”, primeira individual da artista indígena Navegante Tremembé em São Paulo. Com curadoria de Lucas Dilacerda, a mostra reúne cerca de 20 obras revelam uma produção profundamente conectada à memória, ao território e aos saberes ancestrais. Nome artístico de Maria de Fátima Andrade de Sousa, Navegante nasceu na Aldeia Varjota, em Itarema, no litoral do Ceará. Há quase 40 anos, ela desenvolve sua produção artística a partir de técnicas tradicionais de seu povo. Dessa forma, sua obra se constrói como uma ponte entre cultura, natureza e identidade.
Ainda jovem, a artista aprendeu a técnica do toá, um pigmento natural utilizado historicamente pelos indígenas Tremembé. Diferentemente das tintas industriais, o material nasce diretamente da terra. Por isso, cada etapa do processo envolve observação, coleta e preparo manual. O pigmento é retirado de areias coloridas encontradas entre o mangue, o lagamar e o rio Aracati-Mirim. Em seguida, a artista realiza a lavagem e a decantação do material até chegar à tinta final. Assim, o processo de criação começa muito antes da pintura e inclui uma relação direta com o ambiente. Esses sedimentos se formaram ao longo de milhões de anos por processos geológicos naturais. Como resultado, surgem tonalidades como amarelo, vermelho e branco. Além disso, a adição de carvão mineral permite criar novas cores e ampliar a paleta cromática.
A exposição exibe pinturas que retratam elementos do cotidiano e da cosmologia Tremembé. Entre eles, aparecem árvores, pássaros, rios, peixes e paisagens do mangue. Portanto, cada obra funciona como um registro visual da vida e do território. Após a morte de sua mestra, Maria Rosa Tremembé, Navegante tornou-se a última detentora da técnica do toá em sua aldeia. Atualmente, ela ensina esse conhecimento a crianças e adolescentes da comunidade. Dessa maneira, garante que a tradição continue viva nas próximas gerações.
Ao mesmo tempo, a produção da artista dialoga com questões contemporâneas. O território de onde o pigmento é coletado enfrenta disputas e transformações ambientais. Assim, suas pinturas também se tornam uma forma de afirmar identidade e preservar memória.
A individual vai até o dia 11 de julho de 2026. A Galeria Estação fica na Rua Ferreira Araújo, 625, Pinheiros – São Paulo. Funcionamento: de segunda a sexta, das 11h às 19h; sábados, das 11h às 15h. Entrada gratuita.